EDITORIAL
Desde ontem, segunda-feira, 29, um intenso debate, algumas vezes muito mais radicalizado do que exige o bom senso, tomou conta das redes sociais frequentadas pelos goianos. Tudo com base em uma realidade indiscutível: o extraordinário aumento de casos e de mortes provocadas pela Covid-19, pandemia que a partir de um, acredita-se, mercado popular chinês adoeceu 10 milhões de pessoas e matou meio milhão, incluídos nessa conta trágica mais d 20 mil goianos contaminados e quase 500 mortos.
Não, não é pouca coisa. Não, não foram somente pessoas apontadas como sendo do tal grupo de risco, velhos e doentes crônicos. Pior do que isso: o que se apresenta de maneira assustadora - sim, sem nenhum alarmismo - é o avanço da doença.
Em março, quando ainda se registrava em terras goianas menos de meia dúzia de pessoas adoentadas pelo corona vírus Sars-Cov-2, o governador Ronaldo Caiado foi maciçamente apoiado por seus conterrâneos ao aplicar uma muito bem sucedida quarentena. Ao ponto de os goianos serem apontados com certa inveja pelos brasileiros de outras regiões como uma porção do povo que era a prova de que é possível trilhar caminhos duros, difíceis, mas acertados.
O tempo minou a autoconfiança dos goianos de que se estava vencendo a doença. Mais ainda, enquanto se segurava o vírus, a situação econômica avassalou de vez os ânimos. Assim, e aos poucos, e também pelo êxito inicial, o inconsciente coletivo aflorou no sentido de que "já que não se pode derrotar o corona, seja o que Deus quiser porque é melhor ir à luta". Não se vai aqui discutir ou procurar outros protagonistas que foram intensos nessa queda da Bastilha erguida pelos goianos contra a pandemia que apavorou o mundo todo. Isso certamente ocorrerá, mas em seu devido tempo.
O momento é de repensar o formato da luta contra uma não descartada carnificina entre nós e os nossos. É disso que se deve tratar agora. O governo anunciou um esquema preparado ao sabor da ciência médica exercida pelas maiores autoridades da Academia de Goiás, a UFG. É um plano simples, que já foi bem aplicado por outras nações, com algumas variações, como é o caso de Israel. A doença lá não foi vencida, mas tornou a vida possível apesar dela.
Os cientistas da UFG provavelmente olharam tudo o que o mundo fez, e elaboraram algo com obediência vital às condições goianas: 14 dias de fechamento com 14 dias de abertura. Grosso modo, sem levar em conta a incrível rapidez de contágio que esse corona vírus provoca, o protocolo 14 por 14 poderá salvar metade das possíveis vítimas futuras. Essa conta simplificada não leva em consideração que durante 14 dias haverá uma óbvia diminuição na cadeia de contágio. Em determinadas situações, como nas festas clandestinas ou na insana e assassina aglomeração do transporte coletivo de Goiânia e região metropolitana, uma pessoa contaminada pode, involuntariamente, entregar o vírus para outras três ou quatro vítimas, e cada uma dessas afetará outros tantos. Parar essa rede de contaminação por 14 dias provocará inevitavelmente uma queda muito maior do que 50% no número de doentes no futuro imediato.
É preciso, portanto, tentar dessa forma. Até pela falta de algo melhor, e menos sacrificante. Imaginar que as empresas vão bombar as burras com um vírus tão agressivo circulando entre nós é caminhar para o suicídio delas e das pessoas. Tentemos assim. E se não der certo, vamos tentar de outra forma. Temos que vencer porque só precisamos - e queremos! - viver.